MASP

Eugène Delacroix

O inverno – Juno implora a Eolo a destruição da frota de Ulisses, 1856-63

  • Autor:
    Eugène Delacroix
  • Dados biográficos:
    Saint-Maurice-en-Chalencon, França, 1798-Paris, França ,1863
  • Título:
    O inverno – Juno implora a Eolo a destruição da frota de Ulisses
  • Data da obra:
    1856-63
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    197,5 x 166 x 4 cm
  • Aquisição:
    Compra, 1958
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00070
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



Estudioso dos clássicos, Delacroix escreveu sobre sua obra e de outros artistas ao longo da vida, o que contribuiu para que se tornasse um modelo intelectual da pintura romântica. Viajou para conhecer pessoalmente o pintor John Constable (1776-1837), na Inglaterra, e a obra de Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), na Espanha. Essas referências foram fundamentais para que Delacroix se desprendesse do rigor tradicional da pintura francesa, buscando sugerir sensações mais que ser fiel à representação. As obras do MASP foram encomendadas pelo industrial francês Jacques-Frédéric Hartmann (1822‑1880) para decorar sua residência. Nelas, Delacroix associa o tema das quatro estações a mitos greco-romanos. As pinceladas largas são as mesmas para os cenários e para as personagens, e o movimento não está apenas nos gestos e na interação, mas no ritmo da própria pincelada. As curvas das rochas, as nuvens agitadas, a vegetação e as águas parecem acompanhar a sinuosidade dos corpos, conferindo tensão ao conjunto. De longe, as telas de grande formato destacam as cenas em sua totalidade, com grande riqueza de detalhes. De perto, cada trecho funciona com independência, destacando-se os blocos de cor, em especial, as massas de ocre e vermelho, e de verde e azul.

— Equipe curatorial MASP, 2017




Por Luciana Lourenço Paes
Depois da morte do artista francês Eugène Delacroix (1798-1863), as quatro telas das Estações, todas pertencentes ao acervo do MASP, foram encontradas inacabadas em seu ateliê. No leilão póstumo de suas obras, em 1864, elas foram compradas pelo seu fornecedor de materiais artísticos, Etienne-François Haro (1827-1897), o qual, por sua vez, vendeu-as, em 1873, ao famoso marchand Paul Durand-Ruel (1831-1922). O britânico James Inglis (1852-1907) adquiriu-as no fim do século 19 e, por ocasião da venda póstuma de sua coleção, em 1910, passaram à coleção de Albert Gallatin (1880-1965). Na década de 1940, foram adquiridas pela Galeria George Wildenstein, em Nova York, de quem o MASP as comprou, em 1952. Em algum momento depois de 1864, as telas foram repintadas. A probabilidade maior é de que o próprio Haro, que restaurou muitas pinturas de Delacroix durante a vida do artista, tenha feito esses retoques. É possível constatar, por exemplo, a presença de um pavão ao lado de Juno na gravura do quadro do Inverno usada para ilustrar um catálogo da galeria Durand-Ruel, publicado em 1873. As telas passaram por uma limpeza, quando pertenciam a Gallatin, que teria suprimido essas interferências. Além disso, antes de chegarem ao Brasil, as Estações foram expostas no Wadsworth Atheneum Museum of Art, em Connecticut, onde a pintura do Inverno passou por um acidente, que rasgou a tela na região do fundo da composição. Ela foi, então, reentelada: é a única, entre as quatro, que não possui mais o chassi original.

— Luciana Lourenço Paes, doutora em História da Arte, Unicamp, 2020





Por Luciano Migliaccio
Delacroix enfrentou pela primeira vez uma temática similar em 1821, quando o ator Talma encomendou-lhe quatro sobreportas para sua casa. O pintor escolheu representar as quatro estações do ano, personificando-as nas figuras de quatro divindades da mitologia clássica. O uso desse tipo de pintura tinha-se tornado comum na decoração de ambientes rococós. As alegorias inusitadas por ele escolhidas, em detrimento das iconografias convencionais, representam as épocas do ciclo solar, alusivas à antiga teoria dos humores e dos caracteres do homem. Mais de trinta anos depois, o pintor retornou ao tema em virtude da encomenda que lhe fizera o industrial alsaciano Frederick Hartmann. Realiza quatro painéis com temas mitológicos, destinados à mansão do mecenas em Colmar. A encomenda foi feita antes de 9 de janeiro de 1856, pois àquela data o diário do pintor registra uma lista de episódios, entre os quais aqueles que viriam a ser escolhidos para simbolizar as estações. Robaut (p. 449, n. 1792) cita 16 folhas de desenhos, presentes na venda póstuma da herança de Delacroix (n. 379), como primeiras idéias e estudos do modelo vivo para as quatro composições decorativas. Depois dos desenhos viriam os esboços que o mesmo Robaut datou de 1862, acreditando serem talvez réplicas de menor tamanho das obras definitivas. Desses, conhece-se apenas um, A Primavera, que se encontra no Musée Fabre de Montpellier. O crítico francês assinala nesse esboço uma intervenção apócrifa posterior, evidenciada na diferença de medidas em relação às outras três telas. Numa nota do seu diário, talvez de 14 de abril de 1860, Delacroix faz a lista de uma dezena de obras, entre as quais algumas importantes como os Cavalos Árabes Lutando no Estábulo (Paris, Musée d’Orsay), e acrescenta: “avançando muito nos quatro quadros das Estações para Hartmann”. O que prova que os quadros definitivos estavam sendo executados. Em 3 de janeiro do ano seguinte, uma outra nota do pintor confirma que ainda estava ocupado com eles: “Medidas dadas ao Sr. Fritz Hartmann para os quadros das Estações: 1,92 x 1,62” que diferem ligeiramente das medidas atuais das telas. O cliente morre pouco depois, provocando a interrupção do trabalho. Robaut designa três das quatro telas como “esboços” ( A Primavera, O Verão e O Inverno, apesar de o acabamento de O Outono ser praticamente o mesmo das outras três telas), no entanto não usa esta definição ao se referir às réplicas. Devemos a Robaut a seguinte revelação, escrita antes de 1885: “A opinião pública designa estas quatro telas como retocadas por uma mão alheia”. Com efeito, elas reapareceram no mercado acabadas por um pintor acadêmico (Bardi 1954, p. 67). Por volta de 1930, as partes não autógrafas foram retiradas e os quadros, apresentados em exposições, provocaram opiniões diferentes. Bardi (1987) descreve a longa série de passagens que as Estações Hartmann, devido às dúvidas sobre sua qualidade, tiveram nas exposições e nas galerias dos marchands, até o próprio Bardi decidir comprá-las para o Masp, convencido de que a unidade técnica e formal das composições revelaria em todas as suas partes a marca da personalidade de Delacroix. Para Camesasca (1988, p. 191), à delicadeza das obras da juventude de Delacroix substitui-se aqui uma solidez magistral que despreza a correção das anatomias, das poses e dos arranjos da composição, enquanto a textura cromática vibra como um denso canto coral. O mesmo autor aproxima-a da viva riqueza cromática que se encontra no São Miguel pintado no teto da igreja de Saint-Sulpice em Paris (1979, p. 40). Sylvestre oportunamente cita os esboços de William Turner pela qualidade da cor. Mais especificamente, parece-me que Delacroix foi influenciado por obras de Turner como a Dido Fundando Cartago (1815, Londres, National Gallery) e Ulisses Deixando a Ilha de Polifemo. A presença do pintor inglês revela-se não só na técnica, como também na maneira de enfrentar o tema mitológico e na escolha iconográfica. Turner permite a Delacroix sintetizar a concepção expressiva e construtiva da cor de Rubens e dos flamengos com a tradição típica do classicismo francês da paisagem mitológica de Poussin. O sentimento pânico da natureza se exprime, como em Turner, na organização em espiral dos elementos da paisagem que dominam as figuras, e que se correspondem de uma tela a outra, produzindo um jogo constante entre o côncavo e o convexo, como nota Aguilar (1991, p. 50). Tal organização espacial ressalta o conteúdo universal dos episódios míticos, baseados na relação entre o elemento masculino e o feminino, o qual se apresenta dotado de uma força destruidora em Diana e em Juno. Justamente Ballas, no seu estudo sobre a iconografia das estações na obra de Delacroix, afirma que os significados dos quadros Hartmann sugerem um julgamento ético que lhes confere uma dimensão moral. No entanto, essa dimensão não pode ser limitada à expressão da “grande melancolia que, cada vez mais, com o passar dos anos, caracterizou a personalidade e a obra de Delacroix”; deve, antes, ser vista como a tentativa de retomar, de forma atualizada, a tradição do classicismo. As Quatro Estações Hartmann, portanto, são uma passagem importante para entender a percepção de Turner na França, bem como sua influência na formação de artistas centrais para a pintura moderna como Cézanne e Seurat.

— Luciano Migliaccio, 1998


Fonte: Luiz Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: MASP, 1998. (reedição, 2008).



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