MASP

Jean-Baptiste Camille Corot

Cigana com bandolim, 1874

  • Autor:
    Jean-Baptiste Camille Corot
  • Dados biográficos:
    Paris, França, 1796-Paris, França ,1875
  • Título:
    Cigana com bandolim
  • Data da obra:
    1874
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    80 x 58 cm
  • Aquisição:
    Compra, 1958
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00064
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



A vida de Corot foi marcada por uma intensa produção e por viagens que alimentaram sua pintura, em constante transformação e sem adesão rígida a qualquer estilo específico. O MASP possui cinco obras do artista: três retratos, uma paisagem e uma natureza-morta. Em Cigana com bandolim (1874), retrato da soprano sueca Kristina Nilsson (1843-1921), os ocres e vermelhos revelam uma sobriedade calculada. O cuidado com a cor é também a tônica da obra Rosas num copo (1874), em que a transparência do copo e a variação entre pedaços diluídos e maciços de tinta criam a sensação de umidade. O fundo uniforme destaca a cor de cada pétala. As linhas vertical e horizontal e o copo deslocado do centro dão um aspecto casual e intimista para a imagem, como se ela fosse o recorte de uma distração. É uma das três únicas pinturas de flores do artista. Paisagem com camponesa (1861) tem uma gradação de azuis entre o céu e as colinas ao fundo, semelhante à do verde do pasto e das plantas no centro do quadro. A divisão horizontal marca um espelhamento tanto na cor quanto na composição: o terreno declina na mesma medida em que a linha azul da paisagem se levanta. A árvore ao centro conecta os dois planos, enquanto a camponesa representa o trabalho como um elemento constitutivo dessa paisagem.

— Equipe curatorial MASP, 2017




Por Olivia Ardui
As pessoas não são as únicas que pararam de circular e viajar com a atual crise do coronavírus. Obras que deveriam participar de exposições também estão em quarentena nos ateliês dos artistas, na casa de colecionadores ou nas reservas técnicas de museus. Desde que trabalho no MASP, entre minhas experiências mais memoráveis estão as viagens como courrier com obras da coleção do museu. Quando uma obra é emprestada, um funcionário responsável acompanha todo o trajeto da obra desde a sua embalagem em uma caixa especial feita sob medida, transporte em caminhão até o aeroporto, processos de aduana na ida e chegada, até que ela seja instalada na exposição em questão. Na ocasião da minha primeira "missão", tive a oportunidade de acompanhar Cigana com Bandolim (1874) para uma exposição dedicada à retratos de mulheres de Jean Baptiste Camille Corot (1796-1875) na National Gallery of Art de Washington, em 2018. O artista francês era reconhecido por suas paisagens e poucos contemporâneos viram seus retratos. Entre esses retratos, muitas das figuras femininas foram representadas com bandolim, algumas delas meditativas, parecem até mais absorvidas pelos seus pensamentos do que no instrumento de cordas. Corot, que era um grande afeiçoado de música, talvez tivesse gostado de saber que em Guarulhos, apesar de isolada em sua caixa dupla, a Cigana havia sido acomodada no avião ao lado do instrumentos de uma orquestra, antes de reencontrar as outras figuras com bandolim de sua autoria nas salas da National Gallery of Art de Washington.

— Olivia Ardui, curadora assistente, MASP, 2020





Por Luciano Migliaccio
A modelo do quadro Cigana com Bandolim talvez seja a soprano sueca Kristina Nilsson (1843-1921), que começou sua carreira artística em Paris em 1864 e foi aclamada em toda a Europa e também na América. Durante sua viagem à Holanda, Corot foi acompanhado pelo pintor e litógrafo H. J. C. Dutilleux, amigo íntimo de Delacroix, o qual nos informa do entusiasmo de Corot por Rembrandt, que lhe causou uma impressão inesquecível. Ao lado de Leonardo da Vinci, retomado por Corot em Mulher com Pérola (1868-1870, Paris, Louvre) e evocado na mão direita da tocadora de bandolim, e ao lado de Rafael e dos pintores venezianos do século XVI (cujos ecos encontram-se também na cigana), Rembrandt sempre foi um modelo para Corot, sendo Delacroix o outro (Meier-Graefe, 1930). Jamot (1936, n. 54) evoca também a influência das figuras femininas de Vermeer. Como se sabe, esta tela inspirou a Georges Braque o famoso Hommage à Corot (1922, Paris, Musée National d’Art Moderne), embora o instrumento musical nele representado seja, sem dúvida, um violão. Na realidade, é possível identificar uma série de obras que Braque executou ao longo de mais de dez anos baseadas na pintura de Corot. A primeira talvez seja um desenho intitulado Mulher com Bandolim, (1913), seguido de um estudo (1917, Paris, coleção particular) e de uma tela (1918, Basiléia, Öffentliche Kunstsammlung), (Leymarie 1974, n. 15). Isso confirma que, bem antes da década de 1920, Braque meditava sobre o quadro de Corot. Juan Gris também pensou em Corot na sua Tocadora de Bandolim (1916, Basiléia, Öffentliche Kunstsamlung). A influência de Corot sobre esses dois mestres do cubismo ilustra a modernidade de sua pesquisa pictórica. Pelo controle da composição e das relações entre as cores, nas quais está baseada toda a construção da imagem e que alcança uma perfeição e acabamento individual únicos, Corot coloca-se num lugar à parte, mesmo entre seus contemporâneos mais sensíveis ao apelo do realismo, de Courbet aos impressionistas (Cipriani 1958). Essa é a lição, derivada do classicismo de Poussin, que o pintor francês deixou ao século XX. De Braque a Morandi, da vanguarda ao retorno à ordem, sua dedicação aos valores históricos da forma como experiência humana, a qual pode ser transmitida só em termos visuais, é a semente destinada a germinar na melhor pintura do século XX.

— Luciano Migliaccio, 1998


Fonte: Luiz Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: MASP, 1998. (reedição, 2008).



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