MASP

Pierre-Auguste Renoir

Dama sorrindo (retrato de Alphonsine Fournaise), 1875

  • Autor:
    Pierre-Auguste Renoir
  • Dados biográficos:
    Limoges, França, 1841-Cagnes-sur-Mer, França ,1919
  • Título:
    Dama sorrindo (retrato de Alphonsine Fournaise)
  • Data da obra:
    1875
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    42 x 34 x 2 cm
  • Aquisição:
    Compra, 1953
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00096
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS


Por Felipe Chaimovich
Em 1869, Renoir fez uma excursão de pintura ao ar livre até Bougival, com seu colega Monet. Ambos decidem executar pinturas ao ar livre da mesma vista: o rio Sena passando por Bougival, no ponto onde havia lazer turístico combinando uma plataforma para banhos e um restaurante chamado “ La Grenouillère”. Ambos executam pinturas rápidas ao ar livre. Monet, acompanhado pelo experiente Renoir, faz uso pela primeira vez do pincel chato para depositar espessas pinceladas de tinta opaca em camadas únicas, aplicadas em pequenas áreas claramente separadas entre si. A rapidez da pintura produziu um resultado que o próprio Monet qualificou como “ pochade ruim”, numa nota ao colega Bazille. A pochade era o análogo do rascunho pintado amadoristicamente pelo pintor ao ar livre: uma composição rápida que não visava se transformar em outro quadro, no que se diferenciava do esquisso. O termo fora claramente definido no Tratado completo de pintura, de Paillot de Montabert, publicado em 1829 e 1851: “esses ensaios livres (...), esse trabalho bem grosseiro, todo batido, todo esboçado que seja, produz frequentemente uma tentativa bastante preciosa, e nisso ele é diferente do trabalho ordinário do esquisso, que é executado já com mais ponderação e com menos indecisão”. A pochade era praticada de forma suficientemente estabelecida como para sustentar a comercialização regular de um modelo específico de caixas de pinturas portáteis para tal finalidade, tal como o anunciado pela firma francesa Bourgeois Aîné, em seu catálogo de 1896. Renoir e Monet vão praticando o método da pochade nos anos seguintes, despertando o interesse de colegas como Bazille e Sisley. A velocidade na execução da pintura ao ar livre e a licença no uso das cores eram estimuladas pela variedade de tinta a óleo existentes no mercado, que permitiam o estabelecimento da cor local com grande amplitude de matizes prontos. O procedimento veloz também era mantido quando os quadros eram completados ao ar livre em dias posteriores, ou retrabalhados em estúdio: as marcas da velocidade de execução tornam-se um diferencial até mesmo quando o pintor já não está ao ar livre. Monet foi pioneiro na extensão do método veloz da pintura ao ar livre a outros gêneros da arte; em 1872, ele pintou uma festa anual na cidade de Argenteuil, para onde havia se mudado, aplicando sua técnica iniciada com a pintura de paisagem da Grenouillère a uma cena de costumes urbana. No final do mesmo ano, Monet iniciou uma paisagem ao ar livre em que retomava a velocidade da pochade, dando-lhe o título de “impressão”, termo identificado com os rascunhos típicos da pintura ao ar livre: “Impressão: sol nascente”. Assim, o trânsito entre diferentes gêneros da pintura, de paisagens a retratos, naturezas-mortas e cenas de costume, mantinha o mesmo método do ar livre com sua velocidade de execução característica. Em 1874, Renoir, Monet e Sisley associaram-se aos colegas Pissarro, Degas, Pin e Morisot para fundar uma cooperativa que os ajudasse a vender os próprios quadros, num momento de profundas mudanças na relação entre o Estado francês e as exposições anuais que haviam promovido a venda de obras de arte até então, chamadas de Salões. A França terminara recentemente com seu último regime monárquico e, desde 1871, era uma República, conferindo maior incentivo à livre iniciativa privada, inclusive entre os artistas. Nessas circunstâncias, ocorreu a exposição da Sociedade anônima dos pintores, escultores e gravadores, reunindo vinte e nove artistas no estúdio do fotógrafo Nadar. Dentre as várias obras expostas, estava a tela “Impressão: sola nascente”, de Monet. A mostra recebeu uma crítica pejorativa do crítico de arte Leroy, que identificou a maioria das obras mostradas como “impressões”, ou seja, como se fossem rascunhos de pintura ao ar livre, dando ao artigo o título: “A Exposição dos impressionistas”. Em 1876, a Sociedade anônima faz uma segunda exposição coletiva e, no ano seguinte, a terceira do grupo. Em 1877, o grupo de artistas já estava sendo identificado como impressionista pelo público das exposições da Sociedade anônima, frequentemente de forma pejorativa. Diante da situação, Renoir insistiu na adoção explícita da designação coletiva, como relembra: “o nome de ‘Impressionistas’ veio espontaneamente do público, que ficara ao mesmo tempo divertido e furioso diante de um dos quadros da exposição – uma paisagem feita por Claude Monet e intitulada ‘ Impression’. Com esse nome, ‘Impressionistas’, não se tentava transmitir a ideia de novas pesquisas artísticas, mas sim designar simplesmente um grupo de pintores que se contentavam em registrar suas ‘impressões’. Em 1877, quando expus novamente com alguns desses pintores, na rua Lepeletier, fui eu que insisti, novamente, para que se conservasse este nome, ‘Impressionistas’, que nos dava plena visibilidade. Era um título que servia para explicar ao leigo a nossa atitude, e ninguém precisava ser enganado com isso: ‘Eis aqui o nosso trabalho. Nós sabemos que vocês não gostam dele. Se entrarem para nos ver, azar de vocês – não haverá devolução de ingressos’”. A partir de então, o Impressionismo foi identificado com o método da pintura rápida ao ar livre aplicado a qualquer gênero, seja paisagem, retrato, natureza-morta ou costumes. Para tal, os materiais industriais de pintura disponíveis eram decisivos, pois possibilitavam a aceleração das decisões sobre composição cromática no calor da hora, artifício repetido deliberadamente nas etapas posteriores de retrabalho. A adoção do ar livre como método era vista como negação da prática controlado do estúdio, tal como indica Jules Laforgue no texto de catálogo para uma mostra impressionista, em 1883: “os pintores Impressionistas conseguiram isso (...) ao abandonar a iluminação precisa [controlada] a quarenta e cinco graus do estúdio, para viver e ver de modo honesto e irrestrito em meio ao espetáculo luminoso do ar livre nas ruas, no campo, ou nos interiores”. O Retrato de Alphonsine Fournaise inscreve-se nessa fase inicial da extensão do método da pintura ao ar livre ao gênero do retrato, tendo sido pintado em 1875, três anos após Monet ter estendido esse mesmo método à pintura de gênero, com a festa de Argenteuil, e no ano seguinte à primeira exposição coletiva do grupo que viria a ser designado como os impressionistas, a partir de 1877. Percebe-se no quadro a rapidez na execução da pintura, para que Renoir conseguisse captar um efeito de luz específico, como se esse fosse tão fugidio quanto um momento da luz atmosférica numa paisagem. Tal rapidez é uma opção metodológica do pintor que, diferentemente do caso da pintura ao ar livre, poderia controlar a luz sobre a modelo em estúdio, ou mesmo repeti-la em sessões subsequentes de pose. Trata-se, pois, de uma evidente aplicação intencional do método da pintura ao ar livre ao gênero do retrato, havendo, inclusive, retrabalho no quadro, como no branco do jabô, aplicado sobre o azul de fundo já seco, o que indica não ter sido o retrato produzido numa única sessão. Ainda assim, Renoir mantém o gesto rápido, como se o retrabalho também tivesse sido feito com a mesma urgência de uma pochade feita ao ar livre.

— Felipe Chaimovich, curador, MAM-SP, 2017


Fonte: Adriano Pedrosa (org.), MASP Boletim nº 17, São Paulo: MASP, 2017.




Por Eugênia Gorini Esmeraldo
Quanto à identificação da modelo, várias hipóteses foram sugeridas. Camesasca, no catálogo do Masp de 1979, afirma que a modelo seria possivelmente Alphonsine Fournaise. Para alguns autores seria Mme. de L. (de Lecomte) ou uma jovem de Montmartre, Nini, apelidada “Gueule de Raie”, ou ainda a “mère Fournaise”, esposa do proprietário do hotel do mesmo nome, situado na ilha de Chatou. Camesasca, juntamente com Drucker, afirma que, pela jovialidade dos traços fisionômicos, trata-se da jovem Fournaise e não de sua mãe. Bailey também aceita essa identidade. Durante suas visitas a Chatou, Renoir hospedou-se várias vezes no hotel Fournaise, onde inclusive pintaria sua famosa obra Almoço dos Remadores. O proprietário do local era Alphonse Fournaise, casado com Louise Braut, e a filha mais velha deles, Louise Alphonsine, seria a jovem que serviu de modelo para o retrato Dama Sorrindo (Retrato de Alphonsine Fournaise). Casada com Louis-Joseph Papillon, ela sempre ajudou na direção do restaurante e do aluguel dos barcos pertencentes ao pai. Segundo o marchand Ambroise Vollard, Renoir sempre se referia a ela como “la gracieuse madame Papillon”. Renoir retratou Alphonsine ainda quatro outras vezes. O quadro é datado de 1875 e mostra uma jovem de traços delicados, vestindo roupa escura, gola branca enfeitada por um grande laçarote de seda e tule, com um olhar tranqüilo e um ligeiro sorriso nos lábios bem desenhados. O cabelo divide-se simetricamente ao meio, em bandós, que encobrem em parte as orelhas, formando um coque atrás, no alto da cabeça. O fundo claro e a luz indireta remetem, como sugere Camesasca, à luz do Sena que banha Chatou. Há uma certa imaterialidade translúcida no quadro, encontrada também em outras obras de Renoir.

— Eugênia Gorini Esmeraldo, 1998


Fonte: Luiz Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: MASP, 1998. (reedição, 2008).



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