MASP

Edmund Pink

Esboço da casa ocupada por H. W. H. May, esquerda, próximo à cidade (SP), 1823

  • Autor:
    Edmund Pink
  • Dados biográficos:
    Sussex, Inglaterra, 1802-?
  • Título:
    Esboço da casa ocupada por H. W. H. May, esquerda, próximo à cidade (SP)
  • Data da obra:
    1823
  • Técnica:
    Aquarela sobre papel
  • Dimensões:
    13,5 X 24 cm
  • Aquisição:
    Comodato MASP B3 – BRASIL, BOLSA, BALCÃO, em homenagem aos ex-conselheiros da BM&F e BOVESPA
  • Designação:
    Desenho
  • Número de inventário:
    C.01234
  • Créditos da fotografia:
    MASP

TEXTOS



Viajante e comerciante inglês, Edmund Pink percorreu o Brasil, e especialmente o estado de São Paulo, por cerca de cinco meses durante o ano de 1823. Nessa época, São Paulo deixava para trás a imagem de isolamento e penúria e acelerava seu crescimento, transformando-se em um dos centros dos circuitos comerciais do Brasil. Apenas nas décadas seguintes, a economia do estado se desenvolveria com o apogeu da atividade cafeeira. Isso explica por que as representações pictóricas da cidade são escassas até meados do século 19. Pink transitou por São Paulo, por suas praças e chafarizes do centro antigo da cidade colonial e pelo bairro do Ipiranga; explorou a zona açucareira do estado — a região de Itu, trechos dos caminhos para Itu, Santos, Mogi Mirim, Campinas, Rio de Janeiro e Goiás —, e circulou pelas fábricas que começavam a surgir no estado. É possível que essas ilustrações façam parte de um álbum de localidades estrangeiras ao artista. Acompanhadas de um diário de viajante, seriam publicadas em almanaques ilustrados sobre o mundo, e seriam recebidas com muito interesse por casas editoriais europeias e pelo público. Considera-se ainda que essas aquarelas destinavam-se a divulgar São Paulo, servindo como testemunhos de seu potencial econômico, e, possivelmente, provendo informações a empresas da Inglaterra, país que então ampliava seus mercados nas ex-colônias. É possível observar nessas imagens de Pink, além do seu valor documental, a tradição aquarelista inglesa aliada a um olhar técnico especializado no desenho arquitetônico. As aquarelas são sóbrias, abrangentes, panorâmicas, mas revelam um esforço agudo em busca do detalhe e da precisão. Em Cathedral Square, St. Pauls [Praça da Catedral, São Paulo (SP)] (1823) Pink demonstra uma de suas principais habilidades: o desenho de detalhamento de arquitetura. View of St. Pauls from the Rio Road [São Paulo vista da estrada do Rio (SP)] (1823) vê-se o centro da cidade de São Paulo, especialmente sua topografia, que conferiu o desenho da urbanização original da cidade. Observam-se a extensão da área construída e o quadro natural que emoldurava a cidade. Em Sketch of the City of St. Pauls taken from Near the Spot where the Gallows is Erected to the Left of the Road from Santos as You Enter the City [Panorama da cidade de São Paulo tomado das imediações da Forca, à esquerda do caminho de Santos, na entrada da cidade (SP)] (1823) nota-se a complexidade da engenharia necessária para apoiar edificações sobre o relevo íngreme da cidade. Sketch in the City – O Palácio de Sola [O Palácio da Sola (São Paulo, SP)] ( circa 1823) mostra a vida cotidiana da capital paulista; nesta composição veem-se também uma fonte à esquerda e os comércios que surgem ao seu redor. View of the Town of Santos taken from the Opposite Side of the River dos Santos [Panorama da cidade de Santos tomado do lado oposto do Rio] (1823) mostra o encontro dos casarios coloniais com a paisagem montanhosa e a vegetação tropical ao redor do principal porto paulista. Sketch of Land – Entrance to Santos (View of the Rio São Vicente) [Panorama da entrada de Santos (Vista do Rio São Vicente)] ( circa 1823) demonstra o interesse pelos panoramas extremamente amplos em que se veem as monumentais serras do mar. Em praticamente todas as aquarelas destacam-se o cenário urbano e a moldura paisagística. Percebe-se ainda, em meio à paisagem colonial, a intervenção crescente do capitalismo na região.

— Guilherme Giufrida, assistente curatorial, MASP, 2018


Fonte: Adriano Pedrosa, Guilherme Giufrida, Olivia Ardui (orgs.), Da Bolsa ao Museu – comodato MASP B3: arte no Brasil, séculos 19 e 20, São Paulo: MASP, 2018.




Por Guilherme Giufrida
É vertiginosa e fascinante a história da cidade de São Paulo. De vilarejo com cerca de 30 mil habitantes em 1870, a cidade passou de 240 mil moradores na virada do século 19 para o 20, para mais de 10 milhões na virada para o 21. São poucos os registros da vila colonial, restrita à colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú; um entreposto secundário para as rotas dos bandeirantes em torno do colégio dos jesuítas, que juntos subjugaram e catequizaram indígenas de diversas etnias que habitavam a região. No catálogo Da bolsa ao museu, Comodato MASP B3 pude trabalhar com algumas das raras representações da São Paulo da década de 1820, as aquarelas do pintor e comerciante inglês Edmund Pink. Esses desenhos destinavam-se provavelmente a divulgar a urbanidade e a economia do interior do Brasil, servindo como testemunhos de seu potencial, provendo informações a empresas da Inglaterra, que então ampliava seus mercados nas ex-colônias europeias – vale lembrar que a independência fora outorgada um ano antes, em 1822, justamente em São Paulo. Nessas pinturas, vê-se a Igreja de São Pedro dos Clérigos e a antiga Catedral da Sé, demolidas em 1911, o vale do Anhangabaú ainda praticamente rural, o casario térreo sobre o qual se destacam as torres das Igrejas de São Francisco, do Carmo e da Boa Morte, e as primeiras ruas da cidade, delineadas pela topografia. Esse panorama é visto da perspectiva do antigo Largo da Forca em que eram realizadas torturas de escravizados e condenados em praça pública – onde hoje está o bairro da Liberdade. No auge do confinamento dos últimos meses podia se sentir um pouco do clima daquela que ironicamente já foi conhecida como a capital da solidão.

— Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP, 2020




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