Por Luciano Migliaccio e Luiz Marques
O personagem do quadro Francis Rawdon, Primeiro Marquês de Hasting e Segundo Conde de Moira, conhecido também por outro retrato conservado na National Portrait Gallery de Londres, foi um brilhante militar e administrador colonial do Império. Nascido em 1754 na Irlanda, Francis Rawdon, primeiro marquês de
Hastings, engajou-se no exército em 1771 e serviu ainda jovem como general do exército britânico na guerra contra os independentistas americanos (1776-1777 a 1781), recebendo em 1783 por sua conduta distinções
nobilitantes. Com a morte de seu pai, em 1793, torna-se segundo conde de Moira. Participando ativamente da Câmara dos Lordes no partido dos Whigs, Rawdon pertence ao grupo do príncipe de Gales, mais tarde George IV,
graças a quem é nomeado em 1813 governador-geral de Bengala e comandante-em-chefe das Forças Britânicas na Índia. Os sucessos militares na Índia valeram ao conde de Moira ser agraciado em 1817 com o título de marquês
de Hastings. Críticas injustificadas a supostas indulgências em face de um banco local levaram-no a pedir demissão de seu cargo em 1823 e aceitar o menos relevante cargo de governador da ilha de Malta, em 1824. Dois
anos após sua morte em Nápoles, em 1826, membros da India House retiraram suas acusações contra o marquês, indenizando seu filho por danos morais.
Waterhouse (1958, p. 73, n. 353) afirma ser este o quadro pintado para a exposição de 1784 na Royal Academy, em seguida exposto na Schomberg House. Tratar-se-ia, portanto, de uma das 18 obras retiradas pelo pintor da
exposição de 1784 e expostas em sua casa em Pall Mall, na época da segunda e definitiva ruptura do artista com as exposições anuais da Royal Academy. O
terminus post quem para as sessões de pose é naturalmente a data do retorno de Rawdon dos Estados Unidos em 1782, e mais provavelmente 1783, quando é agraciado com o título de Lord Moira. Equivoca-se portanto a tradição acolhida por
Camesasca (1987, p. 148) que situa a obra na extrema atividade de Gainsborough, em 1787, sobre a base de suas similitudes estilísticas com o
Retrato de Samuel Whithread (Waterhouse, n. 720), coleção particular, Londres, datado com muita probabilidade de 1788. Na realidade, a pose e a composição do retrato do Masp parecem retomar e desenvolver com excepcional evidência as do retrato
do fiel amigo de Gainsborough, o
Reverendo Sir Henry Bate-Dudley, exibido pelo pintor na exposição de 1780 da Royal Academy, retrato gravado mais tarde por seu filho, Gainsborough Dupont. Em contra-partida, o retrato do Masp foi gravado por Saunders, a partir de um desenho
preparatório conservado no Worcester Art Museum, de Massachusetts. É sobremaneira notável como Gainsborough funde tonal e sentimentalmente a personagem em um entorno natural imediato que se prolonga sem solução de
continuidade na paisagem. Reynolds admira a capacidade de Gainsborough: “of forming all the parts of his pictures together; the whole going on at the same time, in the same manner as nature creates her works”.
Anunciando a
Stimmungromântica, a afinação do vivido com o “instante”, esta capacidade de envolver o modelo na paisagem, de fazê-lo nutrir-se da grandeza da natureza, e de reprojetar por sua vez seu próprio sentimento de grandeza na
paisagem, tal é a parte própria de Gainsborough na história do retrato em seu século. Sob este aspecto, o retrato do Masp é o
pendantsentimental do Retrato da Soprano Elizabeth Linley (Mrs. Sheridan),Washington, N. G., obra-prima do mesmo ano de 1783.