MASP

Anita Malfatti

Interior de Mônaco, 1925

  • Autor:
    Anita Malfatti
  • Dados biográficos:
    São Paulo, Brasil, 1889-1964
  • Título:
    Interior de Mônaco
  • Data da obra:
    1925
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    73 x 60 cm
  • Aquisição:
    Comodato MASP B3 – BRASIL, BOLSA, BALCÃO, em homenagem aos ex-conselheiros da BM&F e BOVESPA
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    C.01193
  • Créditos da fotografia:
    MASP

TEXTOS



Depois de viver em Berlim e Nova York, Anita Malfatti regressou ao Brasil e realizou na capital paulista, em 1917, uma individual que é considerada a primeira exposição de arte moderna no país. Foi uma das criadoras da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. No ano seguinte, voltou a viver na Europa e passou cinco anos em Paris. Interior de Mônaco (1925) foi provavelmente realizada em uma viagem ao Principado. A pintura é composta por dois ambientes e uma personagem, provavelmente Georgina, irmã da artista, com quem viajava. A escolha cromática e as referências orientalistas revelam a influência da Escola de Paris e da pintura de Henri Matisse (1869-1954). Malfatti estrutura a pintura por meio de padronagens: a cortina e a toalha da mesa apresentam motivos florais, e o piso da sala é quadriculado e possui acabamento em arabescos vermelhos e brancos. A sala em primeiro plano é intensamente decorada com um jarro de flores, uma fruteira, uma cristaleira marrom com a parte superior em vidro — o que permite ver louças e cristais —, uma mesa com toalha que exibe padrão de ramagens, e um bandô sobre a porta no mesmo tecido. Destacam-se os dois retratos na parede, apontando outro tema: a pintura dentro da própria pintura — o recorte da porta com a personagem ao centro pode ser lido também como outra moldura de um quadro dentro da tela. No cômodo ao fundo vê-se a única figura humana na composição, o que confere maior importância a um espaço que ocupa uma pequena parcela da tela. Envolvida num roupão, a personagem parece direcionar-se para uma fonte de luz, sugerida em um delicado jogo de luz e sombra. A obra participou de uma individual de Anita Malfatti no MASP em 1949; no catálogo dessa mostra foi intitulada Interior em Münich, e datada de 1927.

— Guilherme Giufrida, assistente curatorial, MASP, 2018


Fonte: Adriano Pedrosa, Guilherme Giufrida, Olivia Ardui (orgs.), Da Bolsa ao Museu – comodato MASP B3: arte no Brasil, séculos 19 e 20, São Paulo: MASP, 2018.




Por Luiz Armando Bagolin
Entre toalha, bandó e papéis de parede floridos, abre-se uma porta atrás da qual aparece uma figura feminina, de costas, vestida num longo robe branco banhado pela luz azulada da manhã. O interior é tipicamente decorado conforme os padrões da belle époque burguesa, de início do século XX, embora seja bem modesto quanto ao mobiliário, com duas pequenas pinturas penduradas na parede. Pintado em 1925, após quase dois anos da chegada de Anita à França, e exposta em 1926 no Salón des indépendents, em Paris, essa tela reflete a assimilação pela artista de algumas das vertentes da arte europeia do pós-guerra, afeitas ao que se denominou de “retorno à ordem”, e expressas na diversidade de posições da Escola de Paris. Anita, após as infrutíferas experiências das três exposições individuais realizadas no Brasil, entre 1914 e 1921, já apresentava sinais de inclinação à mudança de direção, de uma pintura mais revolucionária ou de extrato cubofuturista quanto à expressão das formas e cores, para uma arte mais amainada em termos de figuração, mais palatável ao público. Em 1928, após seu retorno ao Brasil, ela diria a respeito de sua estadia na capital francesa: “os extremistas não têm mais lugar de destaque. As tendências modernas a que me referi representam correntes moderadas sem, contudo, deixarem de ser caracteristicamente novas”. E embora a artista declare não ter seguido alguém em especial durante essa nova fase, fica evidente, particularmente neste quadro, as referências às pinturas do grupo Les Nabis, em especial à Pierre Bonnard, Édouard Vuillard e Maurice Denis. Anita frequentou as aulas de Denis, possivelmente na Académie Ranson, em finais de 1923, a mesma que fora frequentada por Brecheret durante 1920. Entretanto, em seu depoimento de 1928, a artista contemporizaria: “Não recebi influência de nenhum desses grandes nomes [...] frequentei as academias de cursos livres, visitei os ateliês, rebusquei nos salões o que se fazia de mais avançado [...] depois, mantive-me independente dentro do movimento da época. Aprofundei-me nos primitivos, aproveitei a sua técnica e a sua maneira simples e fortemente característica [...]”. O Interior de Mônaco suscitou uma crítica positiva no periódico francês Les Artistes d'Aujourd'hui, publicado em 15 de maio de 1926: “Son interieur est heuresement composé, les détails y sont traités largement avec un souci d'évocation plutôt que de copie, on sent que l'artiste a voulu, avant tout, recréer l'atmosphère, l'ambiance [O seu interior é muito bem composto, os detalhes são largamente tratados com uma preocupação de evocação e não de cópia, sentimos que a artista quis, acima de tudo, recriar a atmosfera, o ambiente]”.

— Luiz Armando Bagolin, pesquisador, Instituto de Estudos Brasileiros, USP, 2021




Por Guilherme Giufrida
Como antropólogo e curador, me interesso muito pela vida dos objetos. É fascinante ver as imagens da chegada das primeiras obras ao MASP no início da formação do acervo — a descida do avião, a recepção no porto, a foto estampada nos jornais, como celebridades. Meu primeiro trabalho na curadoria do museu foi na mostra Da bolsa ao museu, Comodato MASP B3, por ocasião do empréstimo por 30 anos de 65 obras pertencente às Bolsas de Valores, reunidas na B3. Várias pinturas de alguns ícones da arte brasileira do século 20, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Pancetti e Guignard, vieram aprofundar e complementar a coleção brasileira do museu, que historicamente havia privilegiado a aquisição de arte europeia. Numa das primeiras visitas, a equipe do museu fez fotos das salas de reunião da Bolsa no centro de São Paulo, ainda com as obras nas paredes, mostrando onde cada uma era exposta e de que forma testemunharam por décadas muitas das principais decisões financeiras do país. Hoje, as pinturas são apresentadas nos cavaletes de vidro no MASP, para um público muito mais amplo. Ao vê-las ali, junto a outras centenas de obras do museu, especulo sobre as outras paredes (ou suportes) por onde passaram, que cenas e eventos presenciaram silenciosas, até finalmente chegarem ao MASP.

— Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP, 2020




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