MASP

Manufatura de Gobelins

O índio caçador, da série Pequenas Índias, 1723-30

  • Autor:
    Manufatura de Gobelins
  • Dados biográficos:
  • Título:
    O índio caçador, da série Pequenas Índias
  • Data da obra:
    1723-30
  • Técnica:
    Alta liça
  • Dimensões:
    325 x 219 x 1,5 cm
  • Aquisição:
    Doação Samuel Ribeiro, Silvio Alvares Penteado, Antonio Sanches de Larragoiti Junior, Rosalina Coelho Lisboa de Larragoiti, Gladston Jafet, Indústrias Químicas e Farmacêuticas Schering S.A., Ernesto Walter, Omar Radler de Aquino,Guilherme Guinle, Henry Borden, Major Kenneth Mc Crimmon, Louis La Saigne, Moinho Santista S.A., Um anônimo, 1949
  • Designação:
    Tapeçaria
  • Número de inventário:
    MASP.00216
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



A Manufatura dos Gobelins foi fundada no século 17 como um complexo de oficinas que reunia tapeceiros, pintores, ourives, gravadores. Associados à coroa francesa e sob a direção de Charles Le Brun (1619-1690), esses artesãos elaboravam o mobiliário e as tapeçarias destinados a decorar edifícios oficiais e palácios e tinham o objetivo de demostrar o prestígio da corte francesa no exterior. Em muitos casos, os cartões, desenhos que serviam de base para realizar as tapeçarias, ficavam a cargo de artistas renomados para ser executados pelos artesãos. Foi o caso da série de tapeçarias Antigas Índias, que foram realizadas a partir de desenhos e pinturas de Albert Eckhout (1610-1665) e Frans Post (1612-1680), que acompanharam Maurício de Nassau (1604-1679) em seu mandato de governadorgeral do Brasil holandês (1636-1644). O objetivo era retratar a exuberante e exótica fauna e flora, assim como os habitantes de Pernambuco, o que explica a profusão de detalhes e o cuidado em incluir nas composições o máximo de espécies de animais, plantas e frutas, sugerindo uma abundância e fartura da então colônia. Em 1676, voltando à Europa, Nassau doou esses estudos entre outros a Luís XIV (1638-1715) para que fossem realizadas tapeçarias a partir deles. A série Antigas Índias é divida em Grandes Índias e Pequenas Índias, essa última composta por oito tapeçarias, cinco delas presentes no acervo do MASP.

— Equipe curatorial MASP, 2017

Fonte: MASP: Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: Instituto Cultural J. Safra, 2017. (Coleção museus brasileiros)




Por Raphael Fonseca
Debruçar-se sobre a obra de Regina Gomide Graz se faz necessário por diversos fatores: a valorização das artistas mulheres na história da arte no Brasil, o reconhecimento da experimentação com a arte têxtil em diversos contextos históricos e a forma como ela dialogava com as culturas dos povos originários pelo viés da alteridade cultural. Nascida em Itapetininga, São Paulo, a artista foi criada parcialmente na Suíça, onde estudou na Escola de Belas-Artes de Genebra, instituição célebre por valorizar as chamadas artes decorativas. Quando retornou ao Brasil em 1920, Gomide Graz deu prosseguimento ao seu interesse pela produção têxtil e passou a vender seus trabalhos para a elite paulistana. Índios, obra dos anos 1930, é um trabalho criado a partir da colagem de diversos recortes de feltro que geram uma cena que vai ao encontro das muitas narrativas cristalizadas a respeito da vida e cotidiano dos povos originários no Brasil. Realizado depois de uma série de estudos feitos a partir de 1923 sobre a tecelagem de comunidades da região do Alto Amazonas, é curioso observar como este trabalho datado do século 20 dialoga com outro de dois séculos antes, uma vez que ambos apresentam imagens de indígenas sem a identificação de seus povos em suposta harmonia com a natureza: trata-se da tapeçaria O índio caçador (1723-30), da Manufatura de Gobelins, na França, que, assim como a pintura de Gomide Graz, integra o acervo do MASP.

— Raphael Fonseca, doutor em Crítica e História da Arte, UERJ, 2021




Por Renato Menezes
As imagens que ilustram o processo de colonização europeia nas Américas falam mais dos interesses de quem as produziu do que dos modos de vida dos personagens representados. Isso porque elas não só dão forma aos projetos de poder que organizaram as invasões e ocupações de territórios americanos, como também revelam um esforço de adequação do "Novo Mundo" aos modelos fornecidos pela tradição clássica, palatável ao gosto aristocrático pelo exótico e pelo decorativo. Tal é o caso de uma série de tapeçarias conhecida como Pequenas Índias, produzidas pela Manufatura de Gobelins, das quais três integram o acervo MASP. As peças apresentam cenas fictícias em que indígenas povoam paisagens tão exuberantes quanto fantásticas, circundados por uma profusão de animais e plantas nem sempre nativos. Em uma delas, vemos um homem de torso nu, sentado, segurando uma lança na beira de um rio. Sua posição deriva do modelo de um dos célebres nus de Michelangelo (1474-1564), transformado por Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) na alegoria do Rio da Prata. Ela ecoa ainda na monumental Fonte de Netuno, realizada por Antonio Raggi (1624-1686). Essa forma de apropriação, que associa a figura do indígena ao imaginário aquático, atesta o caráter construído das imagens da colonização e reflete o compromisso do mercado de arte decorativa em produzir obras com temas de rápida assimilação.

— Renato Menezes, 2021



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