MASP

Jean-Honoré Fragonard

A educação faz tudo, 1775-80

  • Autor:
    Jean-Honoré Fragonard
  • Dados biográficos:
    Grasse, França, 1732-Paris, França ,1806
  • Título:
    A educação faz tudo
  • Data da obra:
    1775-80
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    56,5 x 66 x 2 cm
  • Aquisição:
    Compra, 1958
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00056
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



Fragonard foi aluno de Chardin (1699-1779), que o inspirou especialmente para a pintura de temas cotidianos. Apesar de participar de vários salões de arte, não conseguiu ser aceito como artista oficial. Preferia representar casais enamorados em paisagens idílicas ou ainda cenas domésticas e crianças, um tipo de pintura que se tornou comum no século seguinte. Após a Revolução Francesa (1789), Fragonard abandonou o trabalho na Assemblée Nationale para fugir do clima político em Paris. As duas obras que compõem o acervo do MASP são anteriores a essa época. Em A educação faz tudo, o artista dá um tratamento mais informal que Chardin para o tema da educação. Na parte central e iluminada da cena, uma jovem brinca com dois cães para divertir as crianças. Um dos cães usa um manto vermelho e equilibra uma palha de milho entre as patas, enquanto o outro usa um chapéu negro de abas largas, como se ridicularizassem os hábitos ostentosos da aristocracia contra a qual a França se levantaria alguns anos depois.

— Equipe curatorial MASP, 2017




Por Luciano Migliaccio
A cena de A Educação Faz Tudo, situada num interior rústico, com espigas de milho penduradas para secar, mostra uma jovem vista por trás, acocorada, exercitando dois cães fraldiqueiros para divertir várias crianças. O cão maior tem um chapéu negro de abas largas, o outro, com um pano vermelho à guisa de manta, sustenta uma longa planta de milho entre as patas. O segundo dono do quadro, o gravador Delaunay, reproduziu-o, com o título atual, junto com outra obra de Fragonard, O Pequeno Pregador, numa gravura anunciada pelo Journal de Paris (1791, p. 4) e pelo Mercure de France (1791, pp. 83-84) e exposta no Salon daquele ano (1791, n. 538). Mais tarde, as duas cenas foram gra- vadas também por B. Eredi (1750-1812) e por G. B. Cecchi, talvez em Florença, e dedicadas respectivamente a Giuseppe Rucellai e ao barão Ricasoli. As gravuras de Delaunay derivam das pinturas definitivas e não dos desenhos, que talvez tenham sido feitos como estudos, intitulados A Educação (Aylesburg, Waddesdon Manor) e O Pregador (Los Angeles, Armand Hammer Foundation), dadas as muitas diferenças existentes entre esses desenhos e as telas. O fato de os dois quadros terem as mesmas dimensões, de as duas telas terem pertencido ao mesmo dono, passando de Aubert a Delaunay e ao conde Stroganoff, além do fato de ambas terem sido copiadas por Delaunay, por Eredi e por Cecchi, tudo isso leva a crer que os dois quadros estivessem associados desde a sua origem. São apesar disso escassas as afinidades entre as duas composições, concebidas como pendants, o que está de acordo com os hábitos de Fragonard. Um outro desenho apresentado como autógrafo do artista num leilão em Versalhes (19/11/1972, n. 29) suscita alguma reticência (Rosemberg 1987, n. 226). No que diz respeito à iconografia, Rosemberg assim define a atitude do pintor em relação aos jovens modelos: “Menos sensível ao lado sério das crianças do que Chardin, pouco interessado na sua educação moral, ao contrário de Greuze, Fragonard descreve suas maravilhas e suas jóias com uma comunicativa simpatia”. Com efeito, entre uma pintura moralmente séria e o prazer de sugerir aos nossos olhos um instante da magia das cores, Fragonard não hesita em escolher esse último. A entrada da luz na tela, incandescendo as costas da amestradora, cria uma perspectiva luminosa que se torna a verdadeira protagonista do quadro, iluminando com ironia magistral os dois cachorros, que simulam os heróis dos quadros históricos e dos antepassados que mofam nas molduras douradas dos palácios. Sem querer ver neste quadro uma verdadeira sátira da aristocracia, é preciso lembrar que Fragonard aderiu à maçonaria, e parece evidente, pelo menos na escolha do título da obra por parte do gravador, quando o artista estava ainda vivo, uma referência à querela sobre os efeitos do nascimento e da educação contra o luxo, presente na polêmica dos philosophes naquela época. A reprodução em gravura, que não deve ter ocorrido sem o consentimento do artista, dois anos após a Revolução de 1789, indica como essa iconografia podia ser lida pelo público burguês. Fragonard revela sua admiração pela pintura holandesa, em particular por Frans Hals. Vistos pelos olhos cínicos do pintor holandês, os jovens inseguros e elegantes e os velhos capitães viciosos não se assemelham por acaso a fraldiqueiros e mastins? Dos holandeses e da paleta dos venezianos, Fragonard extrai sua técnica feita de pinceladas rápidas que revelam o gesto do artista, na qual “o pincel justapõe, sem fundi-los, o cinabre, o azul-da-prússia, o amarelo-de-cromo para criar a luz, a sombra e o reflexo de um braço...” (Goncourt 1914, p. 332). O abade de Saint-Non define o impacto desse estilo com propriedade: “O senhor Fragonard é todo de fogo”.

— Luciano Migliaccio, 1998


Fonte: Luiz Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: MASP, 1998. (reedição, 2008).



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